O nascimento do menino chamado
Pipoco
Boniteza é admirável
Em todo lugar com certeza
Feiúra é incansável
Por muito pouco que seja
Lugar de feiúra é pouco
Vou contar como Pipoco
Nasceu feio sem beleza!
Mesmo não o conhecendo
Só tendo umas noticias
Não me mandaram um retrato
Porem eu nunca fui disto
Vou tentar a descrever
Para o povo dizer
É feio não sendo místico!
Quando ainda era criança
Não era de admirar
Pai e mãe tinham esperança
Quando crescer melhorar
Mais quanto mais crescia
A feiúra a gente via
Com ele mais aumentar.
Seu nome admirava
A quase todas as gentes
Sua feiúra era tanto
Que os mais inteligentes
Pensavam que ele era
De fora da estratosfera
Doutro planeta emergente.
Tinha a cabeça comprida
As orelhas penduradas
As bochechas meio grandes
E o nariz achatado
Faltava acabamento
Em cima, em baixo, na venta
- que negocio atrapalhado!
A boca era pequena
Atrapalhando a fala
Quando falava cuspia
A baba não segurava
A cabeça não tinha forma
Nem quadrado e nem bola
A nada se assemelhava.
Os olhos eram pequenos
Igualmente os de lampreia
Quando andava na rua
Ou quando ia à feira
Chamava tanta a atenção
Igual não tem no sertão
Outra pessoa mais feia!
Conforme ia crescendo
A sua fama aumentava
Por causa de sua feiúra
Pra lhe verem, lhe procuravam
Era uma atração artística
Era feiúra esquisita
Que a todos admiravam,
Sua gestação foi complicada
Antes mesmo de nascer
Fez sua mãe nove meses
De enjoou padecer
E as coisas mais estranhas
Com uma fome tamanha
Ela queria comer
Um dia pediu ao marido
Que não era assim tão feio
- Quero comer e sem falta
Um bom pedaço de telha
Das feitas na olaria
E como ali não tinha
João passou aperreio.
- Como eu vou encontrar
Telha aqui neste sertão
Todas as casas são cobertas
De palhas, sepus e torarão
Este desejo só pode
Pelo que a mente me acode
Ser uma arte do cão!
- Procure logo encontrar
O trabalho não importa
Ou você quer que seu filho
Nasça com a boca torta?
Vá para outra cidade
Pra fazer minha vontade
Montado ate numa porca!
Ele teve que fazer
De sua mulher a vontade
Pegou uma burra e montou
E foi para outra cidade
Debaixo de chuva e lama
Se a mente não me engana
Passou ate privacidades!
Quando matou o desejo
De comer caco de telha
A mulher falou marido
Outra coisa me aperreia
To coçando a goela
Uma lasca de gamela
Misturada com areia!
Mais não é qualquer areia
Esta daqui me arrepia
Quero areia de primeira
Sem ser da beira do rio
Quero daquela que fazem
Cerâmica, pia e ladrilho!
E forma pra esquadrilha!
Lá se vinha outro trabalho
Mais uma aporrinhação
Onde ele ia encontrar
Ali naquele sertão
Coisa desta natureza
Agora tinha certeza
Tinha li dedo do cão!
Quando encontrou a areia
Com a lasca ele juntou
Fez aquela misturada
Em uma cuia botou
Ela comeu a vontade
Aquilo não era maldade
O marido assim pensou!
O marido já estava
Ate mesmo desconfiado
Os desejos mais estranhos
Tinham se manifestado
Dizia ele, eu quero ver
O que ela quer comer
- Espero chifre assado!
Não terminou de pensar
Ela chamou o marido
Dizendo: Esta criança
Esta judiando comigo
Não estou agüentando
Acho que ele esta chorando
Dentro de minha barriga!
E para ele se calar
O que temos que fazer
É comer chifre assado
Trate logo de fazer
Ou você não quer que ele
Entre em desespero
E morra antes de nascer!
Diz o marido este é fácil
Chifre aqui tem é demais
Ascendeu uma fogueira
Bem longe dos animais
E foi procurar um chifre
Para torrar como disse
Nos versos logo atrás!
Quando o chifre estava assado
Quase ao ponto de queimado
Ele levou pra mulher
Que já estava deitada
Ao comer aquele chifre
O informante que disse
Joana ficou entojada.
E logo sua barriga
Começou a se bulir
Ela falava: marido
O menino quer sair
Me leve para a parteira
Não estou de brincadeira
Acho que vou é parir!
Numa sexta feira 13
E a lua estava cheia
O tempo ficou nublado
A coisa estava era feia
O tempo mudou de repente
Pra vim àquele inocente
Negro ia entrar na peia!
Arrumaram uma jumenta
A bicha era meio braba
Montaram a mulher de banda
Não podia ir escanchada
A estrada era ruim
Não perguntem para mim
Se eles estavam errados.
Por que no caso a parteira
Era que tinha que vir
Ate a casa de Joana
Para ela poder parir
E não Joana ir a parteira
Pra não responder besteira
Eu vou lhe explicar aqui!
Parecia premunição
O que estava acontecendo
Em plena época de seca
Ali estava chovendo
Ainda mais no nordeste
Onde o cabra da peste
Vê água e vai logo tremendo!
A parteira não atendeu
O chamado de socorro
Onde Joana morava
Era em cima de um morro
Bem acima de um abismo
Se for lá não tem juízo
Nem cabeça com miolo
A noite continuava
Com relâmpago e trovão
Muito vento com rajadas
Alem da escuridão
Água caia nas costas
A estrada muito torta
No meio daquele sertão.
Com muito custo chegaram
Onde a parteira morava
Entraram numa casinha
A coisa ai melhorará
Descansados mais um pouco
A espera por Pipoco
Calmamente esperavam.
Lá para as tantas da noite
Ouviram um longo grito
Nem um ouvido humano
Aquilo não tinha ouvido
Um som todo misturado
De onça, cabrito e gado
Bastante e muito esquisito
Hora em que Pipoco nasceu
Aquele som foi soprado
Ali naquele momento
Terminou de Joana o parto
E também um sofrimento
Alegria no momento
Ouvia-se pra todo lado.
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